Nota da diretora

A questão da violência sempre me interessou por ter sido parte da minha vida, já que na passagem da adolescência para a vida adulta vivi os horrores da ditadura brasileira. “Praça Paris” no entanto vai além disso. O filme trabalha sobre o medo e a paranóia numa relação entre duas pessoas com histórias e classes sociais diferentes. Camila: A minha família sempre disse que o culpado da morte da minha avó era o Brasil. Eu nunca acreditei.Gloria: Outro dia eu sonhei com você.
Eu era rica, bonitinha e tinha esse sotaque aí.
O medo do outro me parece algo implantado na sociedade brasileira hoje. E a partir desse medo sabemos que injustiças, agressões, mortes violentas acontecem, como no filme, um thriller que trabalha a intimidade dos personagens.

Mais atual do que nunca , esse medo está em todos os lugares. A violência existe, mas a classe média tem uma relação com ela muito mais virtual: são os vídeos do youtube de traficantes com armas pesadas, são as manchetes dos jornais, são as notícias que se acumulam do que acontece na periferia que nos fazem correr quando vemos um engarrafamento ou um agrupamento de meninos que possam ser identificados como “favelados”. A rotina da violência que eles vivem não é a nossa, mas ela chega ate nós diariamente como se todos os pobres da periferia fossem seus autores. Jonas: Só quem toma conta de ti sou eu.Pastor: O maior psicólogo do mundo é Deus.E vez em quando ela chega mais perto, quando alguém de classe média perde a vida e , ai sim, vira primeira página de todos os jornais.

A história de Praça Paris parte de fatos reais. Numa universidade brasileira que tinha um centro de terapia para carentes, normalmente atendido por jovens alunas do mestrado ou do último ano da faculdade de psicologia, algumas jovens começaram a desenvolver um medo crônico de “pobres” ao lidar com as descrições de violências relatadas pelos seus pacientes, num claro processo de contratransferência.

A personagem de Camila foi criada a partir dessa investigação. Transformá-la em estrangeira, portuguesa, acirrou ainda mais as diferenças e a possibilidade desse medo tomar conta da história trabalhou a favor da nossa dramaturgia.